Leônidas Oliveira

Cultura e Turismo, juntos, podem ser a chave para a retomada do crescimento do Estado

Leônidas Oliveira


A Secretaria de Estado de Cultura e Turismo passou a ser comandada, em maio, pelo arquiteto e urbanista Leônidas Oliveira. E foram justamente os dois setores os primeiros a terem suas atividades interrompidas, devido à pandemia do novo Coronavírus. O jovem secretário de 38 anos, responsável pelo processo que transformou o Complexo Arquitetônico da Pampulha em Patrimônio da Humanidade, se mostra ciente de sua responsabilidade e do desafio que aceitou, garantindo que está aberto para ouvir as demandas dos agentes dos setores para construir ações eficazes. “Já estamos em um processo contínuo de escuta, diálogo e interlocução com vários segmentos da cultura e do turismo, como artistas, profissionais, em especial nossos Conselhos, os sindicatos e entidades de classe, para compartilhar ideias, informações e oportunidades, verificar possibilidades e iniciativas que poderão ser tomadas”, diz Leônidas Oliveira, que é professor da PUC Minas, mestre em Restauração e Reabilitação do Patrimônio Histórico Arquitetônico e Urbano pela Universidade de Alcalá de Henares/ Gregoriana de Roma, Itália, e doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Valladolid, Espanha.

Uma das primeiras iniciativas da Secretaria de Cultura e Turismo, na gestão de Leônidas Oliveira, foi a criação do programa #ARtesalva, que promove parcerias para auxiliar profissionais da Cultura e Turismo de Minas Gerais durante a pandemia. “O objetivo do programa é unir todos para maior eficácia e descentralização da assistência durante a crise da Covid-19, ao público do circo, aos artistas, aos guias de turismo”, informa o secretário, acrescentando que outras ações estão sendo desenvolvidas, paralelamente, contemplando os dois setores. “Unir cultura e turismo é um acerto, sobretudo no que se refere à economia criativa. Juntos, podem ser a chave para a retomada do crescimento do Estado”, afirma. Saiba mais na entrevista a seguir.  

MTC - Como a Secretaria está lidando com os impactos da pandemia da Covid-19 nos setores cultural e turístico?

Leônidas Oliveira - Temos várias iniciativas ocorrendo, simultaneamente, na Secretaria de Estado de Cultura e Turismo. Algumas já em operação como o #ARtesalva e outros projetos a serem lançados em breve. O momento realmente exige ação e respostas, estamos em um momento crítico para as duas áreas. A pandemia desencadeou um processo danoso em que falta o básico para muitos de nossos guias de turismo, artistas, cultura popular, circo, profissionais da “graxa”, ou seja, aqueles que montam palcos e fazem a coisa girar, do músico do bar, dos casamentos, do artista de rua e até mesmo para grandes nomes da nossa arte, que, impossibilitados de trabalhar, não têm condições de se manter. Para a cultura, mais que a falta de incentivos, falta estruturação da sustentabilidade econômica do setor e faltam solidariedade e amor aos nossos artistas de uma parte da nossa sociedade, pois soma-se a isso a campanha massiva de discriminação do artista, dos fazedores de cultura nos últimos anos. Isso me deixa profundamente preocupado e é algo que precisamos reverter, pois arte, assim como a medicina, salva. Salva a alma e, neste momento, precisamos todos dessa salvação para elevarmos nosso pensamento. Por isso, desde que entrei na Secretaria, nossa primeira missão foi criar uma rede de auxílio emergencial voltada aos profissionais mais vulneráveis dos dois setores, que é o #ARtesalva.

MTC - Como funciona o programa “Arte Salva”, que é um projeto inédito de “construção coletiva”, como o senhor disse em seu lançamento? 

LO - Esse projeto nasceu a partir das conversas que tenho mantido com os setores da Cultura e do Turismo. Fiz reuniões com várias entidades, coletivos que estavam fazendo trabalhos de atendimentos emergenciais aos artistas e neles nos inspiramos. O objetivo é unir todos para maior eficácia e descentralização da assistência neste primeiro momento da crise da Covid-19, ao público do circo, aos artistas, aos guias de turismo. Já lançamos o Edital Arte Salva Fundo Estadual de Cultura, que tem aporte de R$ 2,5 milhões em premiações para artistas independentes, bandas, profissionais do circo e demais realizadores que compõem a cadeia cultural em Minas Gerais. Esse edital vai contemplar 1.315 projetos, que receberão R$ 1.900,00 cada para a realização e execução de vídeos de expressão artístico-cultural para transmissão em ambiente digital. Além deste, vamos lançar, em breve, o Arte Salva 2, no valor de R$ 2,5 milhões, em parceria com a Cemig.  Além dos editais, o ARte Salva tem mais de 60 parceiros até o momento, unidos nessa empreitada, entre órgãos do governo, iniciativa privada e sociedade civil, para organizar doações de cestas básicas e outros itens aos profissionais da cultura e do turismo mais afetados e mais vulneráveis pela crise.

MTC - Quais são as expectativas em relação ao turismo, após a pandemia?

LO - No turismo, temos avançado no programa de retomada, que vai passar pelo turismo de proximidade num primeiro momento. Com o fim da pandemia, teremos, primeiramente, o deslocamento local e queremos que ele se desenvolva então por meio dos nossos 47 circuitos, formando, a exemplo de países da Europa, corredores culturais, nos quais será possível o deslocamento seguro. Isso alinhado ao programa Minas Consciente que estabelece soluções seguras para a retomada da economia em todas as suas vertentes. É um programa que tem sido vital para os setores e municípios. Assim que a pessoa puder sair de sua casa, ela vai a um museu, praça, visitar os lugares bonitos da cidade. Na sequência entra o turismo regional. As pessoas vão visitar os amigos e lugares próximos. A diretriz agora é criarmos condições de segurança sanitária para receber os turistas, para que as pessoas se sintam tranquilas ao se hospedarem nos hotéis.

MTC - Como os profissionais dos setores cultural e turístico serão capacitados para a nova realidade pós-pandemia?

LO - A capacitação dos profissionais dos setores está já está pronta para ser iniciada, nos próximos dias. Faz parte também desse pacote de iniciativas  tanto a qualificação quanto aos protocolos da saúde, quanto à formação nas áreas de empreendedorismo, captação de recursos, dentre outros. Elas serão on-line, com lives informativas, estudos e pesquisas de impactos, editais, entre outras atividades e programas realizados pelos órgãos que compõem a Secretaria de Estado de Cultura de Turismo de Minas Gerais, direta ou indiretamente, como o Observatório do Turismo, a Fundação Clóvis Salgado, o Iepha (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais), a Faop (Fundação de Arte de Ouro Preto) e a Empresa Mineira de Comunicação (EMC - Rede Minas e Rádio Inconfidência). 

MTC - O senhor pensa em fazer uma consulta com profissionais dos setores de cultura e turismo para a criação de políticas públicas mais eficazes e pautadas nas demandas desses agentes?

LO - Já estamos em um processo contínuo de escuta, diálogo e interlocução com vários segmentos da cultura e do turismo, como artistas, profissionais, em especial nossos Conselhos, os sindicatos e entidades de classe, para compartilhar ideias, informações e oportunidades, verificar possibilidades e iniciativas que poderão ser tomadas, além da articulação com outras áreas do Governo do Estado em busca de soluções. Com isso, buscamos insumos para a construção de políticas públicas que respondam efetivamente às necessidades dos setores.

A Secretaria não só pretende dar continuidade aos programas e projetos existentes, em especial os pactuados com o governo, como o cabeamento subterrâneo da iluminação pública das cidades históricas ou o projeto de incremento da gastronomia. É preciso aperfeiçoar a participação da sociedade nas discussões e também as parcerias público-privadas. No entanto, é preciso formar os agentes culturais para a autossustentabilidade, sobretudo os consolidados e que possuem mercado no campo da arte. É preciso chegar ao interior, eis nosso maior desafio. Somos um estado imenso e que ressente historicamente da fraca ação da Secretaria de Cultura no interior, sobretudo na questão dos incentivos. Vamos descentralizar recursos e ações. Sabemos todos que é preciso, e assim faremos.

MTC - Como um profissional da arquitetura e do urbanismo e responsável pela transformação do Complexo Arquitetônico da Pampulha em Patrimônio da Humanidade, há projetos de reconhecimento como patrimônio de outros espaços que fazem parte do cenário urbano e afetivo da capital?

LO - Vamos lutar para isso. Minas possui o maior conjunto barroco das Américas, nossas cidades possuem uma formação muito peculiar, a igreja e o adro como elementos fundantes da nossa história urbana. Portanto, a importância do nosso patrimônio histórico vai além. Ela é parte essencial da nossa compreensão de quem somos, de onde viemos. É preciso fincar pé no futuro, sabemos, mas nossa história é e deve ser preservada. Temos vários planos, mas quero destacar dois: o cuidado com a parte elétrica desses bens – e o Iepha já vem trabalhando nisso –, e o soterramento da fiação que interfere na visibilidade dos bens. São projetos que devemos estender. Por outro lado, é preciso unir o patrimônio imaterial de forma dinâmica com a economia da cultura e do turismo. Isso significa promover o patrimônio para atrair turistas e fortalecer a cadeia produtiva do queijo, do café, da cachaça, do pão de queijo, dos doces, ou seja, da manufatura, e potencializar a venda no estado e para fora, fortalecendo a cadeia e gerando emprego e renda. O Iepha, a Empresa Mineira de Comunicação, a cadeia da produção da gastronomia precisam andar juntos. Vamos investir nisso, bem como vamos, assiduamente, buscar recursos e parcerias para continuar cuidando da nossa arquitetura histórica, repito, singular, tanto é que somos o estado com maior número de bens reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como patrimônios mundiais.

MTC - Em sua opinião, qual é a importância dos setores cultural e de turismo para a economia mineira?

LO - A cultura é potência sensorial e econômica. Instrumento valioso de pertencimento à terra. A cultura relaciona-se também com a memória de um povo. No caso de nosso estado, Minas Gerais, o imaginário cultural ou ideia coletiva de pertencimento à nossa terra, a famosa ‘mineiridade’, está intimamente relacionada com a paisagem cultural, que por sua vez é um conjunto de sensações, visuais, olfativas e espirituais. É a amplidão do cerrado e sua mesa farta, é nosso sotaque tropeiro... São as montanhas e serras do Sul com suas águas e luz sublime, é nossa gastronomia assombrosamente rude e refinada porque está plena de sentido de pertencimento. Não é à toa que se espalham por Minas e pelo mundo os restaurantes da nossa comida. É o vale do Jequitinhonha e sua enlouquecedora arte que nos toca as fibras do coração, é o barroco das cidades históricas, é rio, é mar de água em Furnas, é mar de morro, é bar, é fogão a lenha. É imensidão de paz. É Pampulha Patrimônio Paisagem Cultural da Humanidade. Minas são muitas, como diz Guimarães Rosa, mas precisamos extrair sínteses para promover o estado como destino turístico, e nisso nossa paisagem cultural e tudo o que ela envolve tem papel fundante. Se nos perguntarmos por que vir a Minas, certamente uma dessas questões que aflora à mente são nossas formas de vida e nosso patrimônio histórico, que se torna objeto de desejo. Minas é desejável porque tem o que ninguém no país tem. Minas concentra cerca de 60% do Patrimônio Cultural do Brasil. Nossas cidades históricas possuem valores fundantes na história da humanidade. Dessa forma, unir cultura e turismo é um acerto, sobretudo no que se refere à economia criativa. Juntos, podem ser a chave para a retomada do crescimento do Estado. A meta a ser cumprida é unir as duas potências num projeto de imagem de Minas para Minas, de Minas para o Brasil e para o mundo.

MTC - Como o senhor avalia a iniciativa do Minas Tênis Clube de construir e manter um Centro Cultural, dotado de teatro, museu, galeria de arte, salas multimeios e, futuramente, cinemas e biblioteca?

LO - O Minas Tênis Clube faz parte da história de Belo Horizonte e de Minas Gerais, com seu Centro Cultural abrindo as portas para que os visitantes conheçam um pouco mais de sua trajetória e contribuição para a formação cultural, de lazer e turística no estado. E comemoramos com entusiasmo a integração, no último ano, desse valioso espaço ao complexo cultural do Circuito Liberdade, viabilizada pelo acordo de cooperação assinado entre a Secult, por meio do Iepha-MG, e o Minas Tênis Clube. É um importante espaço de fruição e difusão artística. Sua galeria de arte já abrigou importantes exposições, como de Tomie Ohtake, Mário Zavagli, José Alberto Nemer, Alberto da Veiga Guignard, entre outros nomes da arte nacional e internacional, e esta união garante mais diversidade à programação do Circuito, com apresentações artísticas e musicais, projeto educativo, concertos, saraus, entre outras atrações. Destaco ainda o valor cultural e histórico do prédio do Minas Tênis Clube, com o edifício sede em estilo art déco desenhando o entorno da Praça da Liberdade juntamente com o Palácio da Liberdade e o antigo Palácio dos Despachos, onde hoje funciona a Casa Fiat de Cultura.