Felipe Pereira comenta os impactos da pandemia na fisioterapia esportiva



Medidas rigorosas, mas necessárias. Um adversário invisível, mas com efeitos devastadores e que foram sentidos no mundo inteiro. Atitudes enérgicas foram (e ainda são) fundamentais no combate ao novo coronavírus. O distanciamento social passou a ser uma realidade, formas de interação entre amigos foram aprimoradas e o home office deixou de ser uma realidade de poucos.

No esporte brasileiro, os impactos também foram sentidos. Em várias modalidades, competições precisaram ser canceladas. Outras, como a Liga Nacional de Futsal (LNF), que estava a menos de duas semanas do início da temporada 2020, foram adiadas. E ainda não há previsão de data para a bola rolar nos ginásios brasileiros.

Mas como ficou a realidade do futsal do Minas Tênis Clube? Mesmo com a impossibilidade dos treinos táticos em quadra, os trabalhos continuam. Em casa, os atletas cuidam da parte física e são acompanhados pela comissão técnica. Nela está o fisioterapeuta Felipe Pereira.

Perto de completar quatro anos de Minas, Felipe chegou ao Clube em setembro de 2016. Formado em fisioterapia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez especialização em fisioterapia esportiva pela mesma universidade. Hoje, cursa mestrado em Ciências do Esporte, também pela UFMG. Durante a pandemia, Felipe e os demais profissionais da fisioterapia esportiva do Minas precisaram encontrar novas formas de atendimento aos atletas. O entrevistado da semana fala sobre os desafios impostos pela pandemia, o trabalho com a jovem equipe do futsal minastenista, possíveis mudanças no esporte e a importância do conhecimento científico em momentos de incerteza.

Assessoria de comunicação – O Minas manteve a base da última temporada. Como é trabalhar com um elenco jovem?

Felipe Pereira – É interessante e tem seus desafios. Temos que ensinar algumas coisas, passar informações sobre a formação do atleta. Falamos sobre fisioterapia, competição, o que pode ser feito para evitar lesões. Também abordamos questões sobre cuidados básicos, como alimentação e sono. Isso é muito importante, ajuda no desempenho e na prevenção de lesões. É interessante e desafiador. Com um grupo jovem, percebemos que a recuperação é mais rápida, as respostas ao treinamento são igualmente mais rápidas. Então, posso destacar que estas são algumas vantagens.

Assessoria de comunicação – Como os trabalhos preventivos de fisioterapia estão sendo feitos durante a quarentena?

Felipe Pereira – Todo o trabalho é online. Temos encontros com a equipe de ponta (adulta) duas vezes por semana, eu passo o treino para eles. Nos outros dias, eles fazem a preparação física (com Rodrigo Santiago, preparador físico do time), e eu acompanho os treinos. Além disso, a gente tem feito reuniões diárias, com convidados, que também são importantes na questão da prevenção, principalmente para eles entenderem como os atletas consagrados cuidam do corpo, o que eles faziam, o que fizeram de errado, o que deu certo. Temos encontros virtuais com atletas em atividade e com alguns que já aposentaram, mas que foram eleitos melhores do mundo. Trocar ideias com esses atletas é muito importante, porque ajuda a equipe de futsal do Minas a ter consciência e uma mentalidade vencedora. Já percebemos algumas mudanças nos comportamentos dos atletas, foram provocadas por esses encontros online. Na base, acompanho duas categorias por semana, durante o treino de uma hora. Nos outros momentos, eles fazem os treinos que foram orientados.

Assessoria de comunicação – Havia algum tratamento antes da quarentena? Se houve lesão, como estão fazendo para dar sequência ao processo de recuperação?

Felipe Pereira – Nós tivemos um caso de entrose de tornozelo na ponta, que resolvemos bem rápido, não houve comprometimento no fim da reabilitação. Fora isso, temos alguns pós-operatórios, que são atletas que fizeram cirurgia logo no início do período de distanciamento social. Eles estão fazendo tratamento online comigo, temos reuniões diárias. Peço que tirem fotos e mandem vídeos, para que eu possa acompanhar a execução do exercício. Eu ainda não tive a oportunidade de encontrar os atletas. Eles já foram ao médico algumas vezes, mas o trabalho com a fisioterapia está todo sendo online. Com o feedback do médico ortopedista, o trabalho tem dado certo.

Assessoria de comunicação – Quais as práticas simples e que podem fazer a diferença para os atletas neste momento?

Felipe Pereira – Sempre ressaltamos a importância da dieta, porque eles são atletas de alto rendimento. É fundamental comer salada, fruta, verdura... às vezes não é a preferência do atleta, mas sempre lembramos do ganho em longo prazo. Além disso, tem a questão da recuperação, a importância de ficar em casa, não sair, dormir cedo, ter um tempo para o descanso. O terceiro ponto é o comprometimento durante o treino, a entrega. Isso eles já sabem, mas é sempre importante reforçar. A questão da prevenção, de fazer os exercícios na academia ou do preventivo que eu passei a eles. A dedicação ajuda a não ter lesão. É uma troca diária, aprendemos e orientamos os atletas.

Assessoria de comunicação – O que mudou na fisioterapia esportiva com a pandemia?

Felipe Pereira – O principal foi o contato com o atleta. Em nossa profissão, isso é fundamental. Por mais que as consultas online funcionem bem, a gente sente falta de fazer alguns testes, encostar no paciente, sentir como ele está. Não conseguimos, por exemplo, fazer a terapia manual. Isso complica e fica bem difícil para a gente. Tivemos que fazer adaptações, encontros virtuais, pedir ao paciente para fazer testes em casa, com a ajuda da família.

Assessoria de comunicação – O que surgiu como adaptação e deve permanecer na fisioterapia esportiva após a pandemia?

Felipe Pereira – Acredito que as consultas online funcionam bem, é possível fazer. Um paciente que mora muito longe e acabou de fazer uma cirurgia está com dificuldade de mobilidade, por exemplo... logo nas primeiras semanas após a cirurgia, é possível fazer uma consulta online, passar algumas orientações, ver o ambiente onde ele está e adaptar esse ambiente, começar a passar alguns exercícios e adiantar o processo. Podemos eliminar a necessidade de um longo deslocamento do atleta naquele período. Acho que isso deve permanecer. Uma outra coisa que temos feito no departamento de fisioterapia, e é bem interessante, são as reuniões, para discutirmos os processos internos entre os fisioterapeutas do Clube. Também contamos com a participação de convidados externos. Já tivemos encontros virtuais com professores, ex-profissionais do Clube, alguns profissionais que moram fora do país, em outras cidades. Isso permite a troca de experiências e informações, o que tem nos ajudado muito. Acredito que as lives também devem permanecer. Já fizemos algumas na Ciência dos Esportes (do Minas). Isso está bem legal, porque é uma conversa que muitas pessoas ficam curiosas, querem saber como funciona a fisioterapia do Clube. Então, já fizemos algumas e temos acompanhado outras de profissionais de renome. Aprendemos muito com isso. É possível absorver muito com essas lives mais informais. 

Assessoria de comunicação – Quais serão os desafios que teremos na retomada dos esportes?

Felipe Pereira – O que vimos, principalmente com o campeonato alemão de futebol, que foi o primeiro a voltar, é que houve um índice de lesão um pouco maior. Em outro momento do esporte, no futebol americano, em 2012, quando os jogos ficaram parados por quase de dez semanas, também houve aumento do número lesões mais graves, como ruptura de tendões. O desafio que vamos ter é justamente isso: pouco tempo para adaptação de treino e de estruturas, como cartilagem, tendões, ossos. São estruturas que demandam mais tempo para adaptação aos treinos. Vai ser um desafio que teremos que lidar com ele. Para isso, estamos fazendo os treinos cada vez mais intensos, só que chega uma hora que fica difícil aumentar a sobrecarga dentro de casa, por exemplo. Nós temos tentado. É claro que os atletas não vão voltar nem no zero e nem no 100%, por isso teremos um período de adaptação quando eles retornarem e antes dos jogos começarem. O desafio vai ser esse: tentar manter uma qualidade de treinos e jogos, fazendo uma adaptação boa, tomando cuidado com as lesões, principalmente as de tendão, musculares, cartilagem e ossos.

Assessoria de comunicação – Neste momento, um profissional recorre mais ao conhecimento teórico (estudos, publicações científicas) ou ao conhecimento prático?

Felipe Pereira – Assim como em todos os outros momentos, o fisioterapeuta tem que buscar o conhecimento teórico, publicações científicas, estudos recentes e alinhar com o conhecimento prático. Além disso, alinhar o conhecimento científico com a experiência e os desejos do paciente, do atleta. É a prática baseada em evidência. Não é só a evidência científica, porque sabemos que ela tem que ser adaptada à realidade. Um estudo que foi feito na Austrália, por exemplo, serve para aprendermos muita coisa, mas sabemos que a população é totalmente diferente, variando forma física, quantidade de força, altura, peso. Então, usamos a ciência para adaptar o que temos em nossa realidade. Além disso, a experiência do atleta, o que ele está sentindo, como ele está percebendo o corpo dele... tudo isso é fundamental para termos uma prática eficiente, que seja boa dentro do que a gente sabe da fisioterapia teórica e aquilo que o paciente tem percebido. A experiência do fisioterapeuta conta muito. Alguns exercícios que são executados, por exemplo, funcionam bem para outros esportes, mas não da mesma forma para o futsal, porque demanda um ponto diferente. No caso do futsal, a maioria dos estudos é feita com base no futebol, que é o esporte que tem mais publicações a respeito. Então, usamos essas publicações para adaptar a nossa realidade.

Assessoria de comunicação – Em uma abordagem mais genérica, o momento que atravessamos pode trazer mudanças ao esporte?

Felipe Pereira – Eu acho que o esporte vai se adaptar, ter algumas mudanças. Antigamente, no futebol, podiam três substituições, mas agora podem cinco. Eu acho que isso pode ajudar na prevenção de lesão e no desempenho. Além disso, temos a mudança sanitária, a quantidade de pessoas próximas. Talvez tenhamos que ter um pouco mais de cuidado, até mesmo nos treinos, observar a quantidade de atletas em quadra. Isso, talvez, tenhamos que adaptar, mas acho que vai ser uma quantidade temporária. O que deve ficar permanente são essas chamadas online. Isso vai ajudar muito, tanto as chamadas de vídeo quanto as reuniões e atendimentos. Acho que isso vai ficar, porque é um grande benefício. Trocar conhecimento, trocar informações com pessoas do outro lado do mundo, de outros países. O esporte vai ter que se adaptar.

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