Beethoven – 250 anos

O historiador Leandro Karnal fala sobre o legado do mestre da música erudita

Beethoven – 250 anos


No ano em que se comemora os 250 anos de Beethoven, a série de entrevistas Cultura em Pauta, realizada pela assessoria de comunicação do Minas Tênis Clube, traz o historiador Leandro Karnal.  Assumido admirador da obra do “mestre de Bonn”, como ele chama Ludwig van Beethoven, Karnal amplia a ideia do filósofo Nietzsche (“A vida sem música seria um equívoco”), afirmando que “a vida sem Beethoven seria um equívoco”.

Leandro Karnal é professor doutor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em História Social pela USP. Sua formação cruza história cultural, antropologia e filosofia. É autor de mais de 15 livros, alguns entre os mais vendidos do Brasil, como “Crer ou não Crer”, em parceria com o Padre Fábio de Melo, “O que eu Aprendi Com Hamlet”, “O Dilema do Porco Espinho” e  “O Coração das Coisas”. Colunista de jornais de circulação nacional, convidado de programas jornalísticos e culturais, suas redes sociais ultrapassam dois milhões e meio de seguidores. Sua meta? Colaborar para que cada um possa pensar de forma mais densa, saindo da zona de conforto.

Na entrevista exclusiva a seguir, Leandro Karnal explica a importância da música para o ser humano e da obra de Beethoven na construção da nova forma de se ver o artista. “Um espaço sem música é um espaço que se apequena. Para falar das dores mais densas e das exaltações mais exacerbadas, para acompanhar casamentos e enterros, para marcar um hino nacional e uma cantiga de roda, para dançar e marchar: para tudo existe a música. Diferentemente da geração de Mozart, em que os gênios eram apenas empregados de cortes, Beethoven já encarna o criador românico com valor em si. Com as obras dele em todos os campos, surgiu também um repertório novo”, afirma o professor.

MTC - Qual a importância da música para o ser humano?

Leandro Karnal - Primeiramente: nunca houve sociedade sem música em toda história da espécie humana. Isso já seria um indicativo interessante sobre como cada época resolveu diferentes tipos e concepções de música, porém, todas criaram instrumentos e formas musicais. A capacidade de expressar, de simbolizar, de criar e de organizar da música podem ser detectadas no Egito antigo e na Nova York de 2020. A música pode ser identificada transversalmente em todas as fases do nosso passado e em todos os lugares.  

 

MTC - Quando iniciou a relação do homem com a música?

LK - Quando se inicia a comunicação. Flautas feitas de ossos na pré-História, instrumentos de percussão antigos, instrumentos de cordas: tudo foi usado para produzir sons e ritmos desde muito cedo. Recitar poesia épica de forma ritmada e poética acompanhada de um instrumento de cordas: assim nasceram a Ilíada e a Odisseia.  Música registra memória e história, acompanha ofícios religiosos, exalta o Estado, vira canção de protesto contra o poder, ataca alguém com cantigas de maldizer, louva outra pessoa e celebra o amor com menestréis medievais. Música é instrumento de identidade, acalma, concentra e marca o ritmo de exército. Música acompanha a expressão humana: onde começamos a nos comunicar percebemos o poder da melodia e do ritmo.

 Leandro Karnal afirma a importância da música para o ser humano - Foto de R. Trumpauskas Leandro Karnal afirma a importância da música para o ser humano - Foto de R. Trumpauskas

MTC - O que o senhor acha que a ausência da música provoca no ser humano?

LK - Um vazio profundo. Um espaço sem música é um espaço que se apequena. Para falar das dores mais densas e das exaltações mais exacerbadas, para acompanhar casamentos e enterros, para marcar um hino nacional e uma cantiga de roda, para dançar e marchar: para tudo existe a música. Fora dela, o silêncio ou a pura ordem seca da linguagem desprovida de ritmo e de encantamento. 

 

MTC - Qual é a sua relação pessoal com a música? O senhor estudou música na infância, correto?

LK - Fiz piano desde a infância até a juventude. Cantei muito. Fiz parte de corais de igreja.  Toquei órgão em missas e celebrações. Fui, acima de tudo, sempre um grande ouvinte amador da música de profissionais. Meus anos de estudante nunca me qualificaram como músico, porém me transformaram em um ouvinte ávido. O estudo de 12 anos de piano me aprimorou para ouvir quem, de fato, é pianista. O projeto de um músico profissional é de toda vida.

 

MTC - Em dezembro deste ano celebramos os 250 anos de nascimento Beethoven. Qual é a importância desse compositor para música mundial?

LK - Graças a ele surgiu o artista como o entendemos. Diferentemente da geração de Mozart, em que os gênios eram apenas empregados de cortes, Beethoven já encarna o criador românico com valor em si. Com as obras dele, em todos os campos, surgiu também um repertório novo. Os concertos deixaram de ser pedaços e excertos daqui e dali para serem uma análise completa de uma obra. Ele também revolucionou a sinfonia, os quartetos e até sua única ópera tem nuances extraordinários. Nunca mais a simples ideia de compor sinfonias pode ser a mesma. Como Bach, Beethoven é um divisor de águas. O que Cioran (Emil Cioran - 1911 1995 - escritor e filósofo romeno radicado na França, "especialista no problema da morte") disse do autor da Paixão segundo São Mateus pode ser dito do mestre de Bonn: Deus deve muito a eles...

MTC - Pesquisas sobre Beethoven afirmam que ele era uma pessoa introspectiva e solitária. O senhor acha que essas características estão na música dele e conseguem mudar o humor do ouvinte?

LK - Beethoven nunca teve gênio fácil. Deve ser difícil ser músico e surdo e ser um gênio entre pessoas comuns. A percepção musical dele era tão extraordinária que dificultava lidar com nobres mesquinhos e consumidores pouco afeitos à criação. Ter tido um pai como o de Beethoven também não colaborou para sua estabilidade psíquica. A inteligência, no grau da de Beetethoven, é algo que pode doer um pouco. O topo é solitário. O fracasso amoroso e a doença agravaram sua terribilitá (qualidade de provocar terror, temor ou uma sensação de sublime no espectador, atribuída à sua arte). Beethoven nunca seria um bom convidado para uma festa. Felizmente, podemos ter festas com as músicas dele.

 

MTC - Como o senhor entende a música de Beethoven no caminhão de gás, em espera telefônica, na propaganda do Danoninho etc.?

LK - Como um signo aberto capaz de emocionar o mais refinado musicólogo e atrair o freguês do botijão de gás. Adoro isso. Detesto a música hermética de alguns contemporâneos que você tem de estudar 15 anos de contraponto para entender. Um bom músico consegue seduzir o ouvinte comum e o refinado. O máximo da sofisticação é a simplicidade. Beethoven tem um misto de extrema elaboração com a sedução das massas, como o momento final da Nona Sinfonia ou na Bagatelle indiretamente citada na pergunta: Pour Elise.

MTC - Em vídeos e áudios para a coluna “Careca de saber”, o senhor sugere: “permita-se ouvir o grande Beethoven”.  Qual é a sensação que o senhor deseja ou acredita que as pessoas terão?

LK - Se deixarem o ouvido acompanhar, se criarem um certo costume, se tiverem a coragem de entrar no imenso universo do Ludwig, serão agraciados com uma existência estética superior. Outras formas musicais são muito interessantes, a questão é que Beethoven tem mais. Tem a melodia simples, apresenta o ritmo, exsuda a criação, possui a revolução, dissolve a palavra por vezes e mostra que nunca conseguimos criar algo superior à música como expressão ampla do humano em sua totalidade.

MTC - O senhor pode indicar livros e filmes sobre o compositor?

LK - Para crianças, experimente a leitura da série “Crianças Famosas: Beethoven” (Ann Rachlin e Susan Hellard, ed. Callis). Deseja um excelente livro para a data? A Contexto lançou “Beethoven: as muitas faces de um gênio”, de João Maurício Gallindo e Romain Rolland. O compositor norte-americano Jan Swafford lançou, em 2014, o livro “Beethoven, Angústia e Triunfo” (no Brasil: editora Amarylis, 2017). São mais de mil páginas de informações. Há dois filmes sobre o gênio de Bonn. Nenhum é fiel aos fatos, mas ambos são bonitos e ajudam a visualizar aspectos da vida do mestre: “O Segredo de Beethoven” (Agnieszka Holland, 2006) que é uma fantasia sobre Beethoven ter regido sua última sinfonia com auxílio de uma mulher. Ed Harris incorpora a alma irascível do gênio alemão. Mais antigo é “Minha Amada Imortal” (Immortal Beloved, 1994, de Bernard Rose) sobre a identidade da paixão secreta do músico. Se quiser algo realmente bom, experimente o filme da BBC: Eroica (2003, Simon Cellan Jones). Livros são ótimos e filmes ajudam. O importante é viver Beethoven e isso se consegue escutando. Ampliando a ideia de Nietzsche, a vida, sem Beethoven, seria um equívoco.